Ciclovia assassina

Ciclovia no Rio desaba e deixa mortos e feridos

 

Hoje o Rio de Janeiro foi, mais uma vez, palco da incompetência coletiva que leva a mortes. Uma parte da recém-inaugurada ciclovia Tim Maia (que deve estar se revirando no tumulo) desabou e matou duas pessoas. A ciclovia foi inaugurada há 3 meses e custou quase 50 milhões de reais.

Ela fica no costão da Niemeyer, ao lado da pista dos automóveis, suportada por pilares fixados no costão em si. Um local em que batem ondas do mar. E não é preciso buscar a opinião de um oceanógrafo renomado para saber disso. Basta ter o mínimo de conhecimento da cidade. Basta perguntar a um morador do Vidigal ou um surfista do Leblon e de São Conrado. Basta, para ser sincero, ter o mínimo de bom senso.

Ao que parece uma onda bateu na encosta, levantou o deque entre dois pilares, que em seguida veio abaixo.  Não duvido que culpem a onda e não o IMBECIL que projetou uma ciclovia suspensa por cima do mar sem considerar que no local batem ondas desde que existem ondas. Desde sempre. Um amigo meu acaba de me confirmar por mensagem que os deques da ciclovia, de fato, estão apenas apoiados em cima dos pilares. O que é normal para uma passarela normal. Uma ciclovia ao lado do mar, exposta a ventos, maresia e ONDAS não é uma passarela normal.

Quem assinou o projeto? Quem assinou a obra? Essas pessoas são culpadas por duas mortes. Não estamos diante de um acidente, de uma fatalidade. Estamos diante de um homicídio por incompetência e omissão. As duas pessoas que perderam a vida hoje deveriam ter tomado um belo de um caldo, no máximo. É incompreensível que se construa uma estrutura a beira mar que não considere o mar, não é preciso ser engenheiro para entender isso.

E qual o resultado para o Rio de Janeiro? Gastamos quase 50 milhões em uma obra que pode ser jogada no lixo. Quem que usará essa ciclovia de hoje em diante? Pior é imaginar as possíveis “soluções”. Já vejo a sugestão de que se feche a ciclovia quando houver ressaca, afinal de contas, em todos os outros momentos ela é “quase” segura.

Além dos responsáveis pela obra, que devem ira direto para a prisão, alguém precisa pagar a conta de consertar a ciclovia. Não somente do trecho que desabou, mas dela INTEIRA. Está claro que ela não foi construída para aguentar os mínimos impactos do ambiente em que ela se encontra. Se não houver uma reforma COMPLETA nem eu, nem a maioria dos ciclistas da cidade irá usar esse caminho.

A Contemat/Concrejato, responsável pela obra soltou nota dizendo que ninguém irá se manifestar sobre o assunto. Muito conveniente. Espero que seus representantes sejam duramente punidos. Incompetência mata.

Roubos disparam no Rio com cortes de gastos

A crise vem mostrando seus sinais dia após dia nas mais diversas áreas. São filas imensas de desempregados em busca de um emprego. Hospitais em situação precária. Atrasos nos pagamentos de salários e aposentadorias. E cortes de gastos. A área de segurança não foi esquecida nesses cortes.

Nos últimos meses apareceram noticias de que a bonificação por performance que era paga aos policiais militares seria drasticamente reduzida (o bônus que ficava entre 4,5 e 13 mil reais passou para 1,5 a 3 mil reais). Ou seja, isso pode significar uma perda de renda de quase 1000 reais por mês para aqueles policiais que estavam fazendo um bom trabalho.

Não para por ai.

Outro corte radical foi feito no RAS (Regime adicional de serviço). O programa era uma forma de “bico” oficial para os policiais militares, uma forma de aumentar a presença ostensiva da Polícia nas ruas da cidade. Um levantamento do Extra mostrou que ano passado chegava a 1500 o numero de policiais a mais nas ruas da cidade por causa do RAS. Hoje o programa praticamente foi extinto.

Os resultados

Os números do ISP (Instituto de Segurança Pública) mostram que houve um aumento BRUTAL de roubos nos últimos dois meses. Uma escalada nunca antes vista na série histórica de criminalidade disponível no site do ISP (que vai até 2002). Abaixo seguem os números de Roubos e Furtos Totais, Roubos e Furtos de Veículos e Letalidade Violenta.

Mas e dai?

O problema do Rio de Janeiro não é somente o fato que temos hoje menos policiais na rua que no passado. A quantidade de policias na verdade continua sendo alta em comparação com outros lugares do mundo, mas o seu trabalho é pouco efetivo. Isso não é uma coisa que será mudada de uma hora para a outra, pois envolve desenvolvimento, treinamento e melhorias que vão além da instituição policial (Judiciário, Penitenciário, e até mesmo Educação e outras áreas). Mas o fato é que, de uma hora para a outra cortar parte substancial do efetivo na rua além de cortar parte substancial da renda desses agentes tem um efeito negativo sobre a segurança do nosso estado e cidade. Mais uma faceta da crise econômica financeira em que nos metemos por incompetência do nível estadual (de se precaver contra crises em um setor específico da economia local) e principalmente federal (que ao longo dos últimos seis anos construiu uma enorme bomba relógio).

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Taxistas dão mais um tiro no pé

taxiHoje os taxistas da cidade do Rio de Janeiro e Niterói resolveram mais uma vez tomar a sociedade de refém para tentar extorquir do poder público ações proibindo a atuação do Uber.

Primeiro ponto que é necessário ressaltar: os taxistas se superam vez após vez em unir grande parte da sociedade CONTRA os seus interesses. Se antigamente eles conseguiam apoio fácil da classe politica às suas causas hoje está evidente que, apesar de um ou outro politico populista ensaiar um afago à categoria, as ações efetivas nesse sentido são tímidas devido a percepção da sociedade. Ou seja, politico nenhum vai abraçar os taxistas incondicionalmente e tomar ações realmente efetivas contra o Uber sabendo que grande parte de sociedade é contra uma atitude dessas.

E olha que eu nem sou a favor do Uber operar de maneira irrestrita. A meu ver precisamos rever a regulamentação deste tipo de transporte para todos. Uma regulação única que abarque Taxi, Uber e todos os outros serviços similares. Ou seja, serviços de transporte público porta a porta. A regulação deve estabelecer um nível básico de exigências. Idade e condição dos veículos, seguro contra acidentes inclusive para os passageiros, treinamento para os motoristas.

Nada que seja restritivo ou que seja direcionado especificamente a um ou outro serviço. A concorrência tem que existir e a meu ver isso não é impossível dentro de um sistema bem regulado.

VLT na Zona Sul

VLT Zona Sul

O VLT sequer começou a operar no centro da cidade e a prefeitura já anunciou a intenção de expandir o sistema em direção a Zona Sul. O passo inicial para isso é a elaboração de estudos pelas empresas interessadas em executar as obras necessárias. Para isso a prefeitura já publicou um PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse). Quem tiver interesse e quiser ler o PMI pode acessar pelo portal da prefeitura (LINK). Os estudos devem estar completos até Outubro, quando devem ser feitas consultas públicas sobre o tema.

A ideia é que o VLT siga pela praia do Flamengo e Botafogo, e a partir dai entre por Botafogo em direção ao Jardim Botânico, finalizando o trajeto junto à futura estação de metrô da Gávea.

Para quem não conhece um sistema VLT seguem alguns vídeos no final da matéria. Basicamente é um veiculo sobre trilhos que pode ser integrado as vias existentes (inclusive compartilhando a via com outros veículos) e que é largamente utilizado na Europa. Seu tamanho e capacidade são variáveis dependendo de quantos segmentos  (vagões) são utilizados. O VLT do centro do Rio de Janeiro, por exemplo, terá 44 metros e uma capacidade de 420 passageiros por composição.

Mas, assim que o plano de estudar a expansão foi anunciado já houve críticas. Muitas delas girando em torno de uma comparação entre o Metrô e o VLT. Segundo esses críticos o VLT substituiria a ligação metroviária entre a Gávea e Botafogo (ou Centro), e isso seria um absurdo já que o sistema de VLT não teria a capacidade necessária para fazer o transporte de massa necessário entre essas duas regiões. De fato a ideia de uma ligação metroviária nesse eixo existe há décadas, a estação Gávea (que só ficará pronta em 2017) já está sendo construída de forma a possibilitar essa futura expansão e o governo estadual já ventilou a ideia de investir nessa obra (inclusive com estudos conceituais). Porém a grave crise financeira do estado deve postergar qualquer expansão nos próximos anos.

Porém, a crítica esbarra em uma questão fundamental: O VLT proposto se propõe a substituir muito mais ônibus do que metrô.  Cada modal de transporte tem as suas próprias características. E olhando para alguns desses quesitos fica evidente a proximidade do VLT com o Ônibus. As principais delas: A proximidade entre as estações, o embarque no nível da rua e a velocidade média. O metrô por sua vez tem uma velocidade média muito maior, e uma capacidade de transporte muito maior. Por outro lado, as estações são muito mais distantes uma da outra e o custo é muito (MUITO) maior.

Assim como o metrô não irá substituir as linhas de ônibus que trafegam no trajeto proposto pela linha do VLT, o VLT não substitui o metrô no eixo Gávea –Centro. Há questões genuínas que devem ser levadas em consideração. Será que o valor investido no VLT não seria mais proveitoso investido no metrô (desconsiderando a questão de atribuição Prefeitura/Estado)? Como que o VLT irá impactar o transito, principalmente na Rua Jardim Botânico que somente tem duas faixas por direção?

A meu ver a implementação do VLT do Centro à Zona Sul é um passo positivo. Mas ele não deve e não pode ser visto de forma isolada. Não é simplesmente tirar alguns ônibus da rua e colocar o VLT. É necessário que a mudança venha junto com novos passos de racionalização de linhas e, PRINCIPALMENTE, racionalizar o sistema tarifário. Em conjunto com uma migração de tarifação por modal usado para tarifação por tempo (independente da quantidade de modais), o VLT pode substituir uma ampla gama de ônibus e melhorar o transporte público nessa região. Isso não significa acabar com todas as linhas de ônibus na região (algumas podem continuar a existir e inclusive dividir a via com o VLT).

Mais sobre isso no próximo post.

 

 

Quem está lucrando com o Bilhete Único Olímpico?

Quem paga a conta???

Quem paga a conta???

Além da prefeitura anunciar o absurdo de possivelmente fechar importantes modais de transporte público para uso exclusivo de quem adquirir um bilhete de transporte especial para o período dos jogos ainda cabe a pergunta, para onde vai todo dinheiro destas passagens?

Pois o bilhete olímpico não será nada barato. Valido por 1 dia custará 25 reais. Para 3 dias 70 reais e para 7 dias 160 reais. Verdade seja dita que ele dará acesso ilimitado a ônibus, metrô e trem, mas cabe a pergunta: como chegaram a esse valor? O que explica ser 25 reais e não 15 ou 30?

25 reais, do cartão diário, equivalem a 6,57 passagens de ônibus pelo preço atual. Os bilhetes de 3 e 7 dias equivalem respectivamente a 18,42 e 42,10 vezes uma passagem de ônibus. Será que esse preço faz algum sentido?

Mandei esses questionamentos para a Secretaria Municipal de Transportes, e as respostas não são nada convincentes. “O valor do cartão foi calculado tendo como base a tarifa mais alta entre os modais estaduais e municipais (R$ 3,70 do metrô que ainda não foi reajustado) e considerando, em média, seis viagens por dia por usuário. A distribuição de valores fica a cargo dos operadores de mobilidade.”

Se a gente assumir que o metrô irá ser reajustado para 4,10 ou 4,20 teremos então um valor de 24,60 ou 25,20, considerando que se multiplicou por 6 viagens. Mas porque seis viagens? É factível que a MÉDIA de uso de um espectador dos jogos seja de 6 embarques em um único dia? A resposta: “O número foi baseado em estudos de demanda e teve apoio de um consultoria grega que atuou na realização de jogos olímpicos em outras cidades-sede, como Londres e Pequim”.

Continua: “Quanto à estimativa de viagens, podemos ter como base o deslocamento da linha 1 do metrô para o Parque Olímpico, na Barra. Serão três embarques na ida e na volta, totalizando seis. É claro, que é possível que alguns façam menos e outros mais embarques. Por isso, foram calculados seis embarques em média.”

Aqui ficou claro que se pretende deixar a linha 4 do metrô, que será inaugurada para os jogos olímpicos, de uso exclusivo dos portadores do bilhete de transporte olímpico. Segundo a secretaria os 3 embarques de ida seriam: “Metrô linha 1+ linha 4 (serviço especial) + BRT”.

Essas respostas deixam alguns pontos claros. As empresas de transporte do Rio de Janeiro vão GANHAR MUITO DINHEIRO as custas do transtorno de quem mora na cidade. A conta de que o usuário vai fazer em MÉDIA 6 embarques por dia é absurda, e está cada vez mais evidente que a restrição de alguns modais aos portadores desse bilhete olímpico não é um mecanismo de controle de demanda para garantir um nível de serviço, e sim um mecanismo para forçar o cliente a adquirir um bilhete com preço extorsivo.

O Bilhete de Transporte Olímpico mostra quão pouco se pensa na população da nossa cidade e que prevalece o interesse econômico de um seleto grupo de empresários que achou uma maneira de embolsar mais uma grana.

Metrô proibido para moradores durante os jogos

Metro Rio Superlotado

A cidade do Rio de Janeiro está dando passos certeiros em direção a um absurdo completo. Segundo o Secretário de Transportes, Rafael Picciani, alguns modais podem ficar restritos para as pessoas que pagarem o passe olímpico (que tem um preço Olímpico também) durante os momento de maior demanda.

Ou seja, a nova linha de metrô da cidade, paga com dinheiro do contribuinte (e não é pouco, para lá dos 8 bilhões), poderá ficar restrita aqueles que forem assistir a um evento dos jogos. Mais absurdo que isso somente a declaração do secretário:

“O morador do Rio tem o direito de saber que aquele modal vai estar lotado de gente indo para o jogo. Ele não quer ir no tumulto, quer pegar outra opção que o tire dessa confusão”

Caro secretário, das duas uma. Ou o senhor é um completo cara de pau que acha que somos todos idiotas, ou o senhor mesmo é um idiota. Se o senhor restringir o acesso ao metrô aos portadores de um bilhete que custa no mínimo 25 reais o senhor não está dando a “opção” para que o morador “escolha” pegar outro modal (que o senhor acha que não estará lotado e confuso porque mesmo?). O senhor está praticamente obrigando a população a usar o outro modal.

E do jeito que a banda toca vamos por ai mesmo. O Cliente Olímpico será priorizado e o morador terá que se virar em um esquema adaptado de péssima qualidade (se tudo ocorrer conforme o andamento comum dos transportes na cidade).

Racionalização precisa chegar aos bolsos dos passageiros

Onibus Rio de Janeiro

Já digo logo: eu sou a favor da racionalização das linhas de ônibus da cidade. Claro que haverá problemas e erros pontuais que podem e devem ser apontados e corrigidos no futuro. Que pessoas tenham que fazer baldeação quando antes elas tinhas um ônibus “porta a porta” não é um desses problemas. A cidade tem linhas de ônibus de mais em um sistema confuso e pouco integrado. Não conheço nenhuma outra cidade do mundo em que um ponto de ônibus comum tenha 15 linhas. No Rio isso é comum. E do ponto de vista de eficiência não faz sentido algum.

Mas como eu disse, a racionalização não é perfeita. E enquanto vemos muitas reclamações rasas sobre problemas pontuais não vejo ninguém falando sobre um tema que é muito importante para todo mundo que usa o sistema: O PREÇO.

A racionalização tem como objetivo a melhora do sistema como um todo. Uma das decorrências é um melhor aproveitamento da frota existente. Ou seja, menos ônibus (e motoristas, trocadores, mecânicos, diesel, pneus, etc) serão capazes de atender a demanda existente. Isso se potencializa ainda mais pelo fato que menos ônibus acabam sendo mais rápidos por gerarem menos transito. E ainda mais por causa das faixas exclusivas BRS.

Todas essas melhorias operacionais se traduzem em uma redução de custo para as empresas prestadoras de serviço, logo é de se imaginar que isso seja considerado na revisão tarifária do transporte. E ai entra o problema. Enquanto choramingamos os casos de pessoas que agora terão que fazer baldeação (ai meu deus que grave) ou os casos em que a integração de apenas uma troca de linha não é mais suficiente (ponto mais válido, mas também questionável se deve ser possível ir de qualquer ponto a qualquer ponto com apenas uma integração em uma cidade do tamanho do Rio) esquecemos de dar atenção devida ao aspecto tarifário.

A saber. O contrato de concessão assinado em 2010 prevê reajustes anuais definidos conforme uma função baseada em índices de inflação conforme a clausula 5.7 (vide formula abaixo). Já falei sobre isso diversas vezes e sobre os problemas desse tipo de reajuste, caso queiram entender melhor a formula abaixo leiam: Aumento dos ônibus: Legal, mas Ilegítimo!

Pc = Po + Po * (((0,21 * ((ODi-ODo)/ODo)) + 0,03 * ((ROi-ROo)/ROo)) + 0,25 * ((VEi-VEo)/VEo)) + 0,45 * ((MOi-MOo)/MOo)) + 0,06 * ((DEi-DEo)/DE)))

Ou seja, inevitavelmente haverá em 2016 novo aumento da tarifa do ônibus. Porém, o mesmo contrato prevê o reequilíbrio econômico financeiro em casos extraordinários, conforme clausula 11.3: “São pré-requisitos essenciais para fundamentar eventual reequilíbrio econômico-financeiro do presente contrato de concessão eventos que sejam (i) extraordinários; (ii) imprevisíveis; (iii) estranhos à vontade das partes; (iii) inevitáveis; (iv) capazes de gerar desequilíbrio na equação econômica financeira do contrato de concessão.

A racionalização das linhas evidentemente é evento extraordinário e capaz de mudar a equação econômica financeira dos contratos de concessão. Ou seja, há dois fundamentos para que seja avaliado o impacto sobre os custos e rentabilidade das empresas de ônibus decorrente das mudanças que estão sendo executadas.

Mas como sempre acontece nossos representantes estão mais preocupados em olhar para trás do que fazer um trabalho sério e de antemão levantar questionamentos para um problema que eles sabem que vai ocorrer daqui a poucos meses. Tenho certeza que quando houver a próxima revisão tarifária (geralmente no começo do ano) haverá uma fila de vereadores pronta para reclamar, mas nenhum deles se dará ao trabalho de fundamentar a reclamação com dados e fatos.

Aumento de IPVA no Rio

O governador do estado mandou para a ALERJ um projeto de lei que aumenta as alíquotas do IPVA. Em resumo as mudanças propostas são:

-Carro flex passa de 3% para 4%
-Carro com GNV passaria de 1% para 2%
-Motos passariam de 2% para 3,5%
-A isenção e IPVA passaria de carros com 15 anos para 20 anos.
-Carros movidos a gasolina continuam com os 4% atual.

Há também duas renuncias de menor impacto. Aumento no prazo de isenção para pessoas com deficiência e redução da alíquota para tratores não rurais.

EU SOU A FAVOR.

Muita gente vai reclamar e podem começar a criticar. Quem tiver paciência pode ler a argumentação abaixo.

Primeiro vale a pena entender o IPVA. A sua arrecadação, feita pelo estado não fica toda para ele. 50% entra no caixa do estado e os outros 50% para as prefeituras de onde os carros são registrados. Ou seja, essa arrecadação extra é dividida. Segundo, a arrecadação do IPVA em 2015 gira em torno de 2 bilhões de reais. Para comparação, o ICMS gira em torno de 35bi e os Royalties em torno de 5,3bi. Com o aumento do IPVA deve se chegar a aproximadamente 2,5bi com IPVA em 2016.

Dito isso vamos as mudanças e porque eu acho as mudanças válidas (a única que não vou abordar mais a fundo é do GNV porque não tenho uma opinião muito clara formada sobre os benefícios ambientais destes veículos, mas pode-se argumentar que o foco novo é mobilidade elétrica, que continua com 1% de IPVA).

Carros flex. Aumento de 3% para 4% (aproximadamente 366 milhões de aumento de arrecadação).

A alíquota de 3% para carros flex surgiu do fato que carros movidos exclusivamente a álcool tem uma alíquota de 2% e a gasolina de 4%. A lógica foi: Se o flex consome os dois, que tenha uma alíquota “no meio” das duas, ou seja, 3%. E a lógica para o veículo movido a etanol pagar menos imposto (e o GNV e elétrico também) é que ele tem um impacto menor sobre o meio ambiente. Mas o fato é que veiculo flex consome um ou o outro, e não apenas etanol. E a verdade é que a maioria continua abastecendo apenas com gasolina. Como hoje em dia o flex já é quase padrão na produção de veículos seria mais interessante desonerar o combustível do que o automóvel, caso o objetivo seja redução do impacto ambiental. Por isso acho a equiparação de 3% para 4% correta.

Motos. Aumento de 2% para 3,5% (aproximadamente 66 milhões de aumento de arrecadação).

E vêm tarde. A quantidade de motos na nossa cidade é cada vez maior, e a quantidade de transtornos também. A argumentação de que elas não causam problemas é falaciosa. Ao trafegarem nos corredores (o que é quase a norma para motociclistas) cometem uma infração de transito e colocam em risco a vida deles e dos outros motoristas. Além disso, o risco elevado se traduz em milhares de acidentes. Como o de 17 de Agosto em que a Zona Sul inteira da cidade ficou paralisada por horas após a morte de um motociclista no túnel Zuzu Angel. Pode-se adicionar ainda a conta todos os custos gerados por atendimentos médicos decorrentes desses acidentes.

Isenção do IPVA aos 20 e não 15 anos. (aproximadamente 45 milhões de aumento de arrecadação).

Eu por acaso tenho um carro velho, isento de IPVA. Um Palio com bravos 18 anos em mais de 206 mil km rodados. E não faz absolutamente nenhum sentido que meu carro não pague IPVA. Para falar a verdade talvez ele deveria inclusive pagar uma alíquota maior de IPVA do que veículos mais modernos que tenham índices de poluição menores e risco de gerar custos menores (por serem mais novos e terem menor risco de falha mecânica e mais seguros e menor risco de gerar custos ao sistema de saúde público). O prazo para ficar isento passaria de 15 para 20 anos. E a meu ver deveria passar é de 15 anos para 30 anos, deixando isento praticamente só veículos de colecionador.

Por fim: Eu não sou a favor de aumento simples do imposto. Acho que o estado e os municípios devem ao mesmo tempo mostrar de forma clara um esforço adicional de corte de custos. Corte em verbas de publicidade e de gastos que não são essenciais nesse momento. Nesse ponto há muito a criticar. Por exemplo o fato que o governador Pezão aprovou há pouco tempo auxilio educação para o judiciário estadual que concede adicionais que vão até 3 mil reais por mês para funcionários públicos que chegam a ganhar 30 mil reais mensais. Esse tipo de gasto, apesar de individualmente ter impacto pequeno se soma a dezenas de milhões em benefícios que não se justificam.

Arrastões: breves comentários

Roleta Dupla Onibus RioDepois dos arrastões, que não são nenhuma novidade, vieram as “soluções” que são igualmente antigas. Mais uma centena de policiais nas praias e revistas nos ônibus que vêm das áreas mais pobres da cidade. E como sempre é o caso não tardou aparecer idiotas dos dois lados.

“Do lado” das vitimas (não que elas tenham qualquer responsabilidade sobre esse tipo de reação) aqueles que defendem o uso da força e da segregação como mecanismo de proteção. Exemplo disso é a gangue que começou a se formar no próprio Domingo de arrastões para linchar aqueles que julgassem ser delinquentes. E “do lado” dos delinquentes aqueles que, muitas vezes de maneira nada implícita, pintam os delinquentes de vitimas de uma sociedade desigual. Houve quem chamou a vitima de um furto de “burguesia da Zona Sul” que “teve seu celularzinho roubado”, sem saber que ela havia tomado um ônibus de horas para percorrer mais de 30km até chegar a praia com seu celular pago em 10x com salário de pouco mais de um salário mínimo.

No meio da confusão, como é de se esperar, os dois lados colocam o Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, na fogueira. Culpado pelos dois lados o secretário se depara com uma enxurrada de críticas e uma falta completa de mea-culpa de todos os outros envolvidos. Fruto a meu ver da nossa concepção equivocada de que a Polícia tem que garantir a segurança, sempre, em qualquer lugar, a qualquer custo. Como se isso fosse possível. Como se segurança fosse um resultado único e direto da Polícia. Não é. Acho que o nome da secretaria de Beltrame deveria ser outro inclusive: Secretaria de Polícia. Talvez assim comece a se desmontar essa concepção equivocada.

Mas, ao mesmo tempo em que Beltrame tem razão com as suas reclamações sobre a inação de outros órgãos governamentais e outras esferas que deveriam lidar com o problema (por exemplo: o assaltante saiu da delegacia antes da vitima do assalto) a polícia e a forma de policiamento precisam de mais inteligência.

Eu acredito na “teoria das janelas quebradas”. Que basicamente diz que desordem leva a mais desordem. Ou seja, um ambiente organizado e limpo que de a impressão de ser bem cuidado inibe as pessoas de suja-lo. Um ambiente caótico e mal cuidado passa a impressão que se ninguém está cuidando não haverá qualquer coerção à desordem.  No caso dos arrastões essa lógica pode ser aplicada em diversos níveis:

-É sabido que muitos jovens pulam a catraca dos ônibus ou forçam a abertura das portas de desembarque para não pagar a passagem. Isso é uma infração (mesmo se você defende o passe livre). O que acontece hoje? Nada. Por motivos óbvios o motorista não faz nada, afinal de contas a segurança física pessoal dele estará em risco. Mas sabendo que isso é um problema, será que não temos como resolver isso? Hoje em dia todos ônibus são equipados com GPS e comunicação em tempo real que transmite esses dados de GPS a central de operações. Que tal um botão de emergência em cada ônibus que acione imediatamente a PM para que vá averiguar o ocorrido. O ônibus não precisa nem parar. Polícia para isso não falta.

O mesmo mecanismo pode inclusive funcionar para relatar assaltos e outros problemas que necessitem da necessidade de apoio policial. A tecnologia já existe.

-Em outro nível: o tratamento dado a esses jovens infratores. Eu não acho que “joga na prisão” seja a solução nem “eles são vitimas da sociedade” seja desculpa. Uma coisa é certa, ninguém é burro. Um jovem de 14 anos aprende rapidinho que se ele fizer um furto vai sair da delegacia no mesmo dia porque o ECA lhe garante muitas proteções. Se um jovem infrator após o outro “roda” no delito, é apreendido pela polícia, mas não sofre qualquer tipo de punição que seja encarado por ele como um custo alto a pagar, é obvio que se cria um cenário de desordem total que incentiva justamente esse comportamento.

Vejam bem. Eu não estou falando que em cada ônibus da cidade deve haver um PM. Ou que todo menor infrator deve ser jogado numa masmorra. O que estou dizendo é que precisamos estabelecer uma nova cultura em que as pequenas desordens e delitos não sejam ignoradas. Que se crie na cabeça desses menores infratores (e ao que parece muitos agem dessa forma para “tirar onda” e se mostrar proa amigos) a sensação de que o preço a pagar pode não valer a pena o risco. A sensação de certeza de que se pular a catraca vai aparecer quem se importe. A sensação de que se cometer um delito vai ter que arcar com consequências (que não precisam ser a prisão/mas não podem ser apenas algumas horas na delegacia).

Uma coisa é certa. Se a “solução” para os arrastões for a mesma aplicada há décadas, solucionado nada está.