Crivella, o não-prefeito Carioca

Desde que assumiu o cargo de prefeito da cidade Crivella parece se esforçar para não ser o prefeito da cidade. Não há outra explicação para o fato do gestor executivo da cidade abandonar a mesma em uma das épocas mais importantes para a cidade, o carnaval. Crivella pode ter as preferências ideológicas e religiosas que quiser. Só que o Carnaval é acima de tudo uma vitrine de um dos maiores ativos da cidade. A economia do Carnaval gira centenas de milhões de reais na Capital Fluminense e atrai dezenas de milhares de turistas nacionais e internacionais. Chamar o período de Carnaval de folga e ir viajar pela Europa é a mesma coisa que o técnico da seleção Brasileira ir fazer umas comprinhas no shopping enquanto o time joga a final da Copa do Mundo.

O Turismo é um dos setores econômicos mais importantes da cidade. Setor que está sofrendo enormes revezes pelas crises financeiras do Estado e do Município, uma vez que a onda de violência que se alastra pela cidade afugente turistas nacionais e internacionais. Não somente isso. Houve problemas críticos de mobilidade e organização dos Blocos de Rua esse ano, além de desordem urbana fora dos blocos. Se continuar nessa batida não será surpreendente se o Carnaval de Rua Paulista se tornar mais pujante que o Carioca até o final da gestão Crivella.

Se não bastasse o Prefeito ausente durante um dos períodos mais importantes para a cidade ainda descobrimos pelos jornais que as justificativas sobre a viagem são para lá de esquisitas, se não mentirosas. O Prefeito alegou que foi viajar para buscar soluções para a cidade, como tecnologia para melhorar a segurança pública ao visitar a Agência Espacial Europeia (ESA). Acontece que se descobriu que a visita do prefeito foi como de qualquer outra pessoa, particular, sem agenda oficial. Mais que isso, o centro da ESA visitado é especializado na operação de satélites e observação do espaço, sem nenhuma ligação direta com tecnologias de segurança pública. Já o estado de Hesse (onde Crivella visitou a ESA) informou através de um dos seus secretários que não recebeu nenhuma visita oficial de Crivella, e que se houvesse até poderiam ter apresentado a ele programa piloto em testes que usa Drones para filmar e fotografar locais de acidentes de transito e crimes. Em vez disso parece que Crivella está mais interessado em observar o espaço sideral.

Para coroar a viagem do prefeito que não quer ser prefeito a cidade passou por um temporal de grandes proporções na semana passada, antes do seu retorno. Diversos pontos da cidade alagaram como há muito não se via. Quatro pessoas morreram, a ciclovia Tim Maia desabou em mais um ponto (que apresentava problemas relatados por frequentadores desde antes do temporal), e os sistemas de transporte público entraram em colapso. Muitas galerias de aguas fluviais entupidas provocaram alagamentos em diversos pontos da cidade. Mesmo cinco dias após o temporal ainda há partes da cidade sem luz, inclusive escolas municipais. Da Europa o nosso não-prefeito avisou que estava “acompanhando a situação”. Talvez ele devesse ficar por lá mesmo, continuar a ver estrelas, porque por aqui ele não sabe o que precisa ser feito mesmo.

Intervenção tem enorme risco de dar errado

A intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro tem um enorme risco de dar errado. As experiências passadas do uso das forças militares da união para trazer segurança ao estado foram na sua maior parte experimentos fracassados e caros. Se a intervenção seguir pelo mesmo caminho não há chance alguma de sucesso. Colocar o exército na rua para fazer patrulhamento ostensivo e ações militares nas favelas Cariocas é enxugar gelo gastando milhões de reais por dia para isso.

A ação tem que ser diferente.

O fato de haver uma intervenção federal na segurança pública abre as portas para intervenção no nível gerencial das forças de segurança do nosso estado. É ai que precisa haver uma mudança substancial. Aplicar a lógica de guerra militar vai levar aos mesmos resultados que vemos até hoje. Afinal de contas a nossa política de segurança pública é baseada em uma lógica de guerra. Na prática não temos um sistema de segurança pública, temos um sistema de enfrentamento militar de facções paramilitares que dominam boa parte do território Carioca. É ai que deve haver a mudança.

A escolha de um General do Exército talvez não tenha sido a melhor nesse sentido. O que precisamos é de uma polícia mais inteligente e integrada com as outras esferas do poder público para ai sim formar um sistema de segurança pública. Colocar mais fuzil na rua não adiantará nada. Na prática o interventor, apesar de militar, precisa se libertar da lógica de guerra para que possa ter sucesso. É preciso transformar a PM Fluminense.

E enquanto eu acho que a intervenção é necessária, uma vez que o estado está sem mostrando completamente incompetente na gestão da segurança pública (e de outras áreas também), acredito que há uma enorme possibilidade de isso ser apenas mais um caminhão de dinheiro jogado na lata do lixo.

Transportes: Incompetência da gestão Crivella

Quando Crivella foi eleito eu tinha uma certeza. A de que teríamos um governo medíocre, que se elegeu em cima de mentiras insustentáveis. Passado o primeiro ano não somente o novo governo provou sua incompetência como foi além de qualquer expectativa negativa.
Um dos aspectos que mais sofreu retrocessos: Mobilidade Urbana. Já no final do governo anterior podia-se observar uma queda na qualidade do serviço de ônibus da cidade. Mas nada que se compare a 2017. A gestão Crivella mostrou sua total incompetência e incapacidade de lidar com o sistema de ônibus da cidade.

Sim, verdade seja dita, há graves problemas de falta de transparência, suspeitas de que a licitação foi dirigida, e manutenção de um sistema que sempre beneficiou a um grupo de  empresários do setor. Mas a abordagem amadora da atual gestão teve como efeito prático para a população uma piora galopante na qualidade do serviço oferecido. A estratégia da prefeitura é de enfrentamento e embate puro e simples, sem dialogo e negociação. Atrás de uma mesa em um escritório muito bem refrigerado a tarifa de ônibus foi congelada. Enquanto isso nas ruas da cidade sumiram os ônibus refrigerados, quando não sumiram linhas inteiras, e o passageiro ficou no aprazível clima de 40 graus esperando ônibus no ponto, ou no que só pode ser comparado a uma sauna ambulante quando ônibus aparece lotado e sem refrigeração.

E se só fosse isso estávamos cumprindo a promessa de um governo medíocre. Mas não parou por ai. O BRT foi abandonado. Ninguém paga tarifa, ninguém controla, ninguém faz manutenção, e não por coincidência o serviço minguou ou corre risco de extinção em algumas áreas da Zona oeste. Vans ilegais voltaram a tomar as ruas da cidade. A segregação de linhas em pontos BRS, que ajudou muito na fluidez do transito e velocidade do deslocamento, foi abolida (se não oficialmente pelo menos na prática).

A prefeitura diz que uma das conquistas é a redução das passagens, que hoje está em 3,40. A saber, primeiro o Prefeito não concedeu aumento contratual no começo do ano (e promete repetir a dose em 2018). Depois  ajustiça obrigou duas reduções pelo não cumprimento da climatização da frota (que diga-se, não estava prevista na licitação. Um erro enorme cometido pela gestão Paes, certamente não por falta de atenção e sim deliberadamente). Mas é realmente uma conquista poder pagar 60 centavos a menos, mas em troca não ter mais transporte com mínimo de qualidade? E olha que não tínhamos nenhum primor, mas os pequenos avanços de décadas estão sendo desfeitos. E como cereja do bolo, Crivella sancionou lei que obriga a volta dos trocadores, condenando o Carioca ao passado e a manutenção de postos de trabalho que oneram o sistema e não agregam nada que não possa ser resolvido com uso de tecnologia.

Há mais. Em Dezembro de 2017 a justiça concedeu ganho de causa às empresas, condenando o Município a pagar 180 milhões, acrescidos de correção monetária, como indenização às empresas de ônibus pelo atraso na concessão de reajuste contratual em 2013. Naquela época o reajuste foi postergado em diversos meses devido a pressão federal para segurar a inflação. Quem pode pagar o pato no final das contas é o contribuinte. E O MESMO risco está sendo criado pelo governo Crivella ao barrar autocraticamente os aumentos contratuais de 2017 e possivelmente de 2018.

E não, isso não é uma defesa das empresas de ônibus. Há muita incompetência e sem dúvida um histórico de interesses particulares às custas dos passageiros. A licitação de 2010 foi claramente dirigida para que as empresas existentes ganhassem a licitação.

O fato é que para o passageiro as ações do governo Crivella estão gerando mais malefícios que benefícios. Nosso sistema de mobilidade que é ruim ficou ainda pior.

Estamos chegando ao fim do primeiro ano de governo Crivella. Se continuar nesse ritmo a mobilidade carioca vai retroceder duas décadas em 4 anos de governo.

O MIMIMI da vaga “cara” na Lagoa

A nova polêmica no Rio de Janeiro é a privatização e aumento do valor do estacionamento no entrono da Lagoa. Vagas que antes custavam 2 reais para o dia todo passaram a custar entre 3 e 6 reais POR HORA, respectivamente para dia de semana e final de semana. E não demorou muito tempo para que uma enxurrada de Cariocas reclamassem o “absurdo aumento”. Sim, estou usando aspas.
O que define se o preço está caro? O fato que custava 2 reais e passou a custar 20? A única coisa que isso diz é que o preço aumentou 10 vezes. Mas a realidade é que talvez o preço anterior estava baixo de mais. Desde que eu me lembro por motorista (aviso de antemão, não tenho certeza disso) o ticket do Rio Rotativo custa 2 reais. Isso são 15 anos de defasagem de preço. Só de inflação teríamos ai uns 120%.

Mas esse não é o único ponto. Hoje há um número significativamente maior de veículos nas ruas cariocas. Ou seja, a demanda por estacionamento aumentou. Em qualquer mercado livre de controle de preços uma demanda em elevação sem aumento de oferta resulta em um natural aumento de preços. E ASSIM DEVE SER. Existem estudos bem fundamentados que mostram que há relação entre mobilidade e o preço de estacionamentos. E essa relação é negativa. Ou seja, quanto mais abundantes e baratos são os estacionamentos, PIOR fica a mobilidade urbana. A lógica é simples de entender. Se possuir e estacionar um carro é barato, todos vão tirar o carro da garagem  entupir as ruas da cidade.  

O próprio estacionamento da Lagoa é uma prova disso. Antes do aumento do preço era comum ver nos finais de semana e dias de eventos filas se formando DO LADO DE FORA dos estacionamentos, formadas por pessoas que esperavam alguma vaga abrir. Essas pessoas que formavam fila do lado de fora ocupavam uma faixa de rolamento provocando engarrafamentos para todos, inclusive aqueles que sequer querem estacionar. O preço baixo prejudicando a mobilidade de todos. Há outro exemplo Carioca e recente. O prefeito Eduardo Paes, acertadamente, acabou com centenas de vagas de estacionamento nas vias do Centro da Cidade, e o impacto foi positivo.

O que o Carioca precisa entender que estacionamento público barato NÃO É UM DIREITO. Muito pelo contrário. Estacionamento “barato” não tem nada de barato. Estacionamento barato gera um enorme custo a toda sociedade Carioca. Pagar 2 reais para estacionar o dia todo em Plena Zona sul em um feriado de sol é ridículo.

A questão não é potencialmente sem problemas. A questão de quanto a prefeitura recebe da empresa merece atenção. Assim como a regulação do contrato de concessão. Não li o contrato (falta de tempo). Há também oportunidades que a empresa perde com o modelo atual. Por exemplo: o estacionamento do Parque dos Patins é extremamente subutilizado durante a semana (mesmo quando custava 2 reais pelo dia todo). Com a nova precificação de 3 reais a hora certamente ficará às moscas.

PS: Pra quem tem interesse no economês da questão vale a pena procurar no google:  The High Price of Free Parking. Que vai levar a material de Donald Shoup, um dos maiores especialistas do assunto. Vale a pena escutar o episódio do Podcast Freakonomics sobre o tema, que pode ser acessado nesse link: Parking Is Hell.

A absurda decisão do TRE sobre Paes e Pedro Paulo

Vamos deixar uma coisa clara de inicio. Nunca votei em Eduardo Paes. Nunca defendi voto em Eduardo Paes. E na verdade sempre defendi abertamente outros candidatos (Gabeira na primeira eleição e Otávio Leite na segunda). Quanto a Pedro Paulo: é repugnante que o mesmo ainda seja eleito para qualquer cargo público, que tenha sido escolhido para tentar suceder Paes e que 16% do eleitorado Carioca votou nele mesmo após as acusações de agressão física à ex-mulher. 488 mil Cariocas acham aceitável votar em um político que bateu na própria mulher.

Isso dito, ontem o TRE condenou Eduardo Paes e Pedro Paulo à inelegibilidade de 8 anos e multa de 106 mil reais pelo fato que Pedro Paulo usou o Plano Estratégico “Visão Rio 500” como programa de governo. A argumentação do processo, que foi proposto pelo adversário Marcelo Freixo, do PSOL, é que o plano, pago com dinheiro da prefeitura, não poderia ser utilizado como plano de governo por um candidato. Logo, que teria havido desvio de finalidade na contratação a consultoria que elaborou o plano.

Mas houve? O fato de um candidato usar um documento público da prefeitura constitui desvio de finalidade na contratação e elaboração daquele documento? Me parece que o argumento é bastante frágil. A prefeitura de Paes elaborou dois planos anteriores, um para o período 2009-2012 e outro para o período 2013 a 2016. E em 2015 começou a elaborar o plano 2017-2020 que inclui também visões estratégicas para médio e longo prazo, olhando até o ano 2065.

Talvez foi a primeira gestão municipal que se deu ao trabalho de elaborar uma visão de longo prazo com metas e números com processo colaborativo e estruturado. Não um delírio tirado da imaginação de um político ou marqueteiro qualquer. Houve consultas, participação online e presencial, pesquisas qualitativas e quantitativas, levantamento de dados. O trabalho é bastante extenso e até mesmo aqueles que acusam o governo de Paes de promover uma “cidade negócio” vão achar informações interessantes no mesmo.

E que bom que se fez um trabalho destes (e algo me diz que a gestão atual não vai se dar ao mesmo trabalho). Precisamos profissionalizar a gestão pública da cidade. E trabalhos como este dão embasamento e elevam o debate em todas as áreas da gestão publica. Realizações podem ser confrontadas com metas. Mudanças de rumo podem ser esmiuçadas a luz dos dados existentes. E perguntas mais inteligentes podem ser postas para o gestor municipal a fim de testar e confrontar as hipóteses colocadas.

Elaborar e atualizar periodicamente um plano estratégico da cidade não deveria ser exceção, e sim a regra. E que isso seja feito com cada vez mais rigor e transparência a fim de isolar o processo de possíveis ingerências politicas. Assim como deveria ser cada vez mais a regra que os gestores públicos referenciem estes planejamentos durante sua gestão. Mesmo aqueles que por orientação político-partidária decidem tomar outro rumo deveriam explicar o porque estão desviando do planejamento que foi realizado.

E ai voltamos ao TRE. Se há evidente ingerência política no processo de elaboração do plano estratégico temos um problema sério. Mas onde há evidências disso no caso? O fato de Paes ser prefeito e Pedro Paulo secretário do mesmo e posteriormente candidato não prova esse ponto. O fato do mesmo usar as metas e ideias do planejamento estratégico, documento público e aberto a todos, prova apenas a concordância do mesmo com as metas estabelecidas pela gestão incumbente, o que não é nada extraordinário, e a intenção de seguir com o planejamento e as politicas públicas em curso.  Afirmar que houve abuso de poder político-econômico por utilizar um documento público da prefeitura como plano de governo me parece um tanto quanto exagerado se não ficar provado uma ingerência na produção deste material com claro e evidente intuito eleitoral. Não há evidências nesse sentido.

Parece que a falha mais grave foi um erro de citação ABNT. O programa de governo, apesar de ser cópia fiel do conteúdo do plano estratégico, não mencionava a sua origem  explicitamente (evidente a qualquer pessoa que acompanha a prefeitura carioca).

E para finalizar, já que entre o começo e o final da matéria alguns devem ter esquecido. Isso não é uma defesa de Eduardo Paes, muito menos de Pedro Paulo. A questão é o TRE, e a justiça como um todo, agir de forma imparcial, técnica e razoável, sem deixar-se guiar por emoções (por mais babaca e deplorável que seja o réu, como é o caso de Pedro Paulo).

O problema da Selfie

Depois de meses de investigação as forças de segurança do Rio de Janeiro conseguiram capturar e prender um dos chefes de uma das facções criminosas da cidade, responsável por uma guerra em curso há meses na favela da Rocinha. A ação que levou a prisão envolveu não apenas a Polícia Civil e Militar Fluminense, mas também a Força Nacional, Exercito e Polícia Federal.

Mas o que parece ter gerado mais atenção nas mídias (sociais e tradicionais), foi o fato que uma dúzia de Policiais Civis tiraram foto em grupo e selfies, posando com o traficante capturado. A foto em nada difere da clássica foto do time de futebol ou dos amigos que acabaram de jogar uma partida de paintball. E está justamente ai o problema.

O trabalho policial deve ser sério e regido por normas bem estabelecidas. Disciplina no cumprimento das normas e protocolos de trabalho é uma coisa que todos deveriam ter. Mas é especialmente importante no trabalho de manutenção a lei e da ordem. Digo mais, é muito mais que simplesmente importante. Seguir as normas e protocolos deve ser a natureza primordial do trabalho policial e a transgressão a essas deve ocorrer apenas em casos extremos.

“Mas ninguém foi prejudicado” vi muitos dizerem. Sim, somos todos prejudicados. Principalmente os próprios policias. A não observância de normas e protocolos, quando tolerada certamente é um incentivo para que as mesmas se repitam e novas transgreções ocorram, toda vez testando novos limites. Hoje é uma selfie, amanha a foto de uma vítima, algum dia um tiro inconsequente em uma abordagem policial (e não é preciso se eforçar muito para lembrar casos onde a não observância as normas e protocolos acabou com inocentes mortos). Não menos importante, os policias estão se expondo a riscos desnecessários. Somente esse ano mais de 100 policiais já foram mortos no Estado do Rio de Janeiro.

E para deixar claro. Os homens e mulheres que se prestam a trabalhar nas forças de segurança do Rio de Janeiro são em sua maior parte verdadeiros heróis que trabalham com condições medíocres e sem o devido suporte do estado e da sociedade que servem. Isso precisa mudar. Mas tais deficiências não devem ser justificativa para que deixemos de lado os requisitos de disciplina e retidão dos agentes de segurança do nosso estado.

Parabéns pela captura, por esse pequeno passo na direção correta. Mas da próxima vez, deixem a selfie para a hora de lazer, e não de trabalho.

Como acabar com a caixinha da FETRANSPOR

O esquema de corrupção por trás das empresas de ônibus prova mais uma vez que onde há a possibilidade de desvios e corrupção está VAI OCORRER na Brasil. Não adianta trocar empresários, políticos ou fiscais. Onde há a possibilidade essa vai ser explorada. Um ônibus Carioca é uma maquina perfeita de lavagem de dinheiro e de sonegação.

Pensem no seguinte: Quem controla a quantidade de passagens que é paga em dinheiro? As próprias empresas. Logo elas podem por um lado sonegar a quantidade de passagens pagas em dinheiro. Ou então fazer o contrário, rodar a roleta quantas vezes quiserem e legalizar dinheiro sujo advindo de atividades criminosas.

Os eventos de hoje deveriam ser um sinal claro a todos que o SISTEMA de pagamento de transporte público precisa mudar. E precisa mudar radicalmente. A ÚNICA maneira com que se inibe a possibilidade de fraude na arrecadação é com um sistema TOTALMENTE eletrônico e controlado por uma entidade separada (que pode ser o estado, mas também pode ser por uma empresa independente, sujeita a fiscalização e controle do estado).

Isso significaria que 100% dos pagamentos teriam que ser realizados através de meios eletrônicos, ou no mínimo através de maquinas de atendimento que carreguem um tíquete eletrônico, mesmo que ele seja pago dentro do ônibus (imaginem que cada vez que se pague dentro do ônibus tenha que se pagar uma taxa extra de 1 real e se receba um bilhete eletrônico recarregável). A lavagem de dinheiro se tornaria imensamente mais difícil (por haver um registro que pode ser analisado), e a sonegação pelas empresas de ônibus virtualmente impossível.

Mas isso quer dizer que 100% dos pagamentos sejam feitos com cartões eletrônicos. O carioca vai aceitar uma mudança que iniba a corrupção? Ou vai reclamar de que não pode mais pagar em dinheiro no ônibus?

 PS: Há outras mudanças na tarifação e no modelo de contrato de prestação de serviços públicos que também poderiam ajudar bastante, não somente para acabar com a corrupção mas também para garantir maior qualidade na prestação e serviços de mobilidade, falo sobre isso no próximo post.

A FÉ contra a RAZÃO

Tenho a percepção que o povo Brasileiro sempre gostou e acreditou muito na capacidade dos salvadores da pátria. Mais exatamente de um salvador da pátria. Uma figura que tem superpoderes para resolver todos os problemas nacionais. Para uns essa figura é Lula, Freixo, Tarcísio, para outros Bolsonaro, MBL, Dória. Cada um elege o seu salvador da pátria e parece seguir com fé as determinações que vêm de cima para baixo. Confiança absoluta e um compromisso de ser fiel à palavra dada.

No meio disso tudo a RAZÃO, a faculdade de raciocinar, apreender, compreender, ponderar e julgar de maneira estruturada, foi sendo colocada de lado. Cada vez mais pessoas se contentam em ser papagaios de algum discurso entoado pelo seu salvador da pátria, sem qualquer tipo de análise crítica ao conteúdo que é propagado. O contraditório não é mais motivo para reflexão e debate. E sim um motivo para ataques e desqualificações pessoais.

E essa postura popular cada vez mais comum abre avenidas para populistas de plantão que vendem um discurso simplista e de fácil digestão. Assuntos complexos são transformados em questões binárias. Esquerda vs. Direita. Polícia vs. Bandido. Os recentes embates (não debates) sobre questões como liberdade de expressão (caso dos Museus) e direitos e deveres da Polícia (Caso da Turista na Rocinha ou os traficantes executados em Costa Barros) mostram bem essa dinâmica.

2018 será um ano fértil para esses populistas de plantão. E nada indica que a população ira sair da sua fé preguiçosa e colocar neurônios para analisar as sérias questões que atingem nosso estado e país.

Polícia tenta culpar as vítimas por morte de turista

É ridícula a iniciativa do estado, através da Polícia Civil, de querer imputar responsabilidade criminal pela morte de uma turista espanhola à agencia de turismo que a levou para a Rocinha. Segundo a delegada responsável a empresa seria considerada um “agente garantidor” por terem omitido informações relevantes sobre a segurança do serviço oferecido.

A argumentação foge de qualquer tipo de lógica racional. É impossível para qualquer prestador de serviço, de qualquer ramo que seja, garantir que um terceiro NÃO VÁ cometer um crime que possa impactar os seus clientes. Se a argumentação for que “todos sabem que há tiroteios na Rocinha e é um lugar perigoso e, por consequência, o prestador assume a responsabilidade sobre a segurança e resultados causados por terceiros” então todo e qualquer negócio dentro da Rocinha precisa ser responsabilizado criminalmente se um dos seus clientes sofrer um crime perpetrado por terceiros. E cá entre nós, não só na Rocinha. Cariocas e Turistas são mortos na Rocinha, na Maré, na Lagoa, em Laranjeiras, Copacabana. A cidade tem índices de letalidade que se assemelham a uma zona de guerra.

O Estado e a gestão da UPA de onde um médico recentemente foi sequestrado são criminalmente responsáveis pelo seu sequestro? Afinal de contas, o Complexo da Maré é perigoso. Crime na Via Dutra, responsabilidade criminal da Concessionária? Assaltado no ônibus, responsabilidade criminal do motorista e da empresa de ônibus?

Deixo claro: Na minha opinião fazer Tour Turístico pelas favelas do Rio de Janeiro é uma ideia completamente IDIOTA. Mas ser idiota apenas e circular pela cidade não é crime. Diga-se de passagem, o Estado mantem uma página oficial na internet em que a Rocinha consta como Favela Pacificada.

O que houve foi um erro grosseiro e inconsequente cometido pela Polícia Militar. O trabalho deles não é fácil. Falta estrutura, faltam condições de trabalho, falta remuneração adequada, falta equipamento, falta treinamento. Mas nada disso abona o erro cometido e não adianta nada tentar achar uma explicação alternativa aos fatos. Culpar as vítimas não vai ajudar em nada. Pelo contrário, será mais uma precedente que cria riscos e insegurança a qualquer prestador de serviços da cidade.

Leia Também: PM despreparada mata inocentes

PM despreparada mata inocentes

Não é a primeira vez, certamente não será a última. Uma Polícia mal preparada é uma polícia que leva inocentes à morte. Quem não se lembra episódio na Tijuca em 2008, em que o carro de uma mãe de família foi confundido com um veículo em fuga e atingido por 17 disparos efetuados pela PM, levando a morte uma criança de 3 anos? Ou o caso dos cinco jovens mortos que também tiveram o carro metralhado em Costa Barros com mais de 110 disparos. CENTO E DEZ DISPAROS.

Hoje foi mais uma morte estúpida. Uma turista espanhola de 67 anos foi baleada depois que seu carro passou sem parar por uma blitz na favela da Rocinha. Os PMs correram atrás do carro, que seguia em baixa velocidade, e um tiro disparado acertou a turista no banco de trás.

As circunstâncias fazem muitas pessoas esquecerem dos fatos, basta ler os comentários no facebook sobre o acontecido. Muitos acham que é justificável a polícia usar força letal, já que o veículo não parou em uma blitz no meio de uma favela que está em guerra há décadas. Guerra esta que se intensificou há algumas semanas. Mas não podemos esquecer dos fatos pois são eles que importam.

  • Um veículo não parou em uma suposta blitz policial
  • O veículo seguiu em velocidade normal
  • Os Policiais correram atrás do veículo e efetuaram disparos em direção ao veículo
  • Não havia qualquer confirmação de quem estaria no carro
  • Não havia qualquer perigo iminente aos Policiais ou população em volta advinda daquele veículo

Estes são os fatos.

Não parar em uma blitz policial não é motivo para uso de armamento letal. Simplesmente não é. Nem aqui nem em lugar nenhum do mundo. A Policia tem o direito de aplicar o uso da força de acordo com a gravidade da situação. Não há nesse caso gravidade que justifique o uso de armamento letal. Além disso (já que vi esse argumento por ai), não existe a tática de efetuar um tiro de armamento letal para parar um veículo, por exemplo atirando contra os pneus. Isso não existe, é uma invenção de Hollywood para as telinhas de cinema, não uma tática ensinada e usada por forças de segurança ao redor do mundo. Pelo contrário, as diretrizes policiais normalmente reforçam que não é seguro e não é recomendável disparar contra veículos em movimento a não ser que seja o último recursos para defesa da vida do agente ou de inocentes. Não é o caso.

Não é possível abonar o erro cometido pelas circunstâncias que cercam o ocorrido. Sim, a Rocinha está em Guerra. Sim, a PM é alvo de ataques de milícias criminosas. Sim, o clima é tenso. Sim, nossa polícia é despreparada, mal equipada, mal remunerada. Todos esses fatores acumulados podem até ter contribuído para o ocorrido, mas não mudam o fato de ter sido um erro grosseiro e inconsequente. E sobretudo, não é admissível abonar o erro sob pena de que a repetição do mesmo se torne ainda mais comum do que já é.

Defender a Polícia e as forças de segurança da nossa cidade é uma coisa. Achar que defender erros e abuso policiais é defender a polícia é maluquice. Assim como é maluquice achar que quem está apontando o erro da Polícia é defender bandido.

Nossa polícia precisa sim de mais suporte da população e do estado. Precisa sim uma remuneração mais compatível com o risco que precisa assumir. Precisa sim de melhores condições de trabalho, melhores equipamentos e muito mais treinamento. Precisa também de reformas nos sistemas penais e judiciários que acabem com o sentimento de que enxuga gelo.

Mas nada disso muda os fatos do ocorrido. Houve um erro grosseiro, o uso inconsequente e incompatível de força letal e uma pessoa inocente foi morta. Não há como fugir dessa realidade.

A reação errada é apenas crucificar os policiais envolvidos como se o problema não fosse maior que um erro pontual. Igualmente errado seria ignorar a gravidade do caso e achar que é apenas um dano colateral que não deve levar a consequências sérias aos envolvidos .

PS: O fato em si já é trágico o bastante por si só. Mas há um efeito negativo adicional para o Rio de Janeiro. A cidade tem como um dos principais potenciais de renda o turismo. E evidentemente o fato está agora estampado em diversos jornais internacionais, certamente afastando turistas e por consequência impactando negativamente a indústria turística. Isso significa manos geração de emprego e renda, menos dinheiro que entra na cidade, menos desenvolvimento econômico. Mais sobre isso neste outro post.