Hoje O Globo traz matéria mostrando que o governo vai investir mais 2,2 Bilhões de Reais em 13 favelas da cidade. Algumas delas com UPP’s, outras ainda sem. O anuncio foi feito durante visita do Presidente, Governador e Prefeito às instalações do Teleférico instalado no Complexo do Alemão, que também custou la os seus quase 300 milhões de reais. Segundo a Matéria os recursos vão ser investidos em diversas favelas da cidade e incluem a construção de um Teleférico na Rocinha e um Monotrilho ligando as favelas na Tijuca.
Mas o que daria para fazer com 2,2 Bilhões de reais em vez de urbanizar e perpetuar o modelo de habitação baseado na favelização da cidade? Muita coisa, muita coisa de verdade. Vamos imaginar que o Governo resolvesse investir essa mesma soma de dinheiro na construção de casas e apartamentos populares, digamos na região de Deodoro. E ai já vai vir a primeiro critico dizendo que ninguém quer sair de uma favela da Zona Sul para ir morar em Deodoro. Concordo, muita gente não vai querer. Mas em 2-3 anos por la passarão as linhas de BRT TransOlimpica e da Av. Brasil. Ligando a região de maneira expressa à Barra e ao Centro, fazendo o longe de hoje não tão mais longe amanha. E se a SuperVia Tomar vergonha na cara teremos passando por ali também Trens indo ao Centro, ou seja, será uma área bastante bem atendida por transporte publico.
Uma unidade do Minha Casa Minha Vida tem o custo estimado de 50 mil reais. Mas vamos ser realistas e entender que precisamos de habitações melhores e maiores para atrair as pessoas para fora da favela (afinal de contas quem consegue abrigar uma família de 6 em 42 metros quadrados?). E é justamente esse o movimento que precisamos, atrair as pessoas para fora da favela. Então vamos dizer ai que cada unidade custa 100 mil reais, incluindo a infraestrutura ao redor.
2,2 Bilhões de Reais seriam equivalentes portanto a 22 mil unidades habitacionais. E, segundo levantamentos do IBGE uma família média de classe baixa tem usualmente 5 pessoas, o que se traduz então em aproximadamente 110 mil pessoas que podem ser assentadas com tamanha soma de dinheiro. Isso é a criação de um bairro completamente novo na cidade, um bairro que poderia ser planejado e construído já contemplando todas as necessidades de infra estrutura de saúde, educação, segurança, comercio e afins. Algo que nunca vimos na nossa cidade para as classes baixas. Creio que o único bairro da cidade mais ou menos planejado com antecedência tenha sido a Barra da Tijuca.
Essas 22 mil famílias teriam claro que se comprometer com algumas coisas. Pagar um “leasing” de 10 anos de um valor razoável, digamos 100 reais por mês. Assinar termo de contrato que impede venda ou locação por 15 anos. E se comprometer a participar de pesquisas regulares durante o mesmo período com objetivo de analisar se o reassentamento foi benéfico para as pessoas alem de identificar possíveis problemas. E preferencialmente essas pessoas deveriam ser de favelas cariocas, tendo que entregar seu imóvel para o estado com objetivo de dês-favelizar a cidade.
Claro que retirar as favelas da Zona Sul é quase impossível. Mas creio que esse tipo de reassentamento poderia “esvaziar” favelas próximas ao próprio empreendimento, abrindo novos locais para expansão do projeto. A intenção principal não é pegar os “pobres” e deslocar eles para longe dos “ricos”. E sim criar um novo modelo de habitação popular de qualidade que seja de fato uma opção plausível para evitar a favelização da cidade. Alem disso um bairro planejado pode ser muito mais barato para a sociedade como um todo uma vez que custos de coleta de lixo, policiamento, saúde, manutenção podem ser bem mais reduzidos.
E para colocar as coisas em perspectiva. Hoje é estimado que tenhamos 1,3 milhões de pessoas morando em favelas. Reassentar 110 mil moradores representa quase 10% desse total. Podemos remover 10% das favelas com essas verba, mas em vez disso vamos usar esse dinheiro para perpetuar a favelização Carioca. Isso apenas com essa verba especifica. Junte a isso os Milhões de Teleféricos, “Pseudo-Urbanizações”, e custos de manutenção das favelas atuais e tenho certeza que há dinheiro para um efetivo processo de dês-favelização da nossa cidade. O que falta é visão e coragem dos nossos governantes.
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[...] This post was mentioned on Twitter by Nil Obermüller and Marcelo Gomes. Marcelo Gomes said: RT @caoscarioca: 2,2 Bilhões para perpetuar a favela. http://bit.ly/egVwx2 [...]
Acho que você tocou num ponto fundamental, ainda que pela tangente.
A pergunta das favelas é: pq as pessoas se sujeitam a morar em favelas?
A resposta está no seu texto, e é o mesmo motivo porque um apartamento de dois quartos no Leblon custa quase o triplo do uma mansão com campo de futebol, piscina e churrasqueira em Santa Cruz: status e menor tempo de deslocamento. No caso da favela, agravantes: eles pagam (para as milicias ou traficantes, depende de onde) infinitamente menos por serviços de água, luz, internet e televisão a cabo.
De qlqr jeito, morar na favela da zona sul e na zona norte próxima (tijuca) não é barato. Os pobres de verdade não estão lá, mas nas favelas pouco badaladas e distantes da zona oeste e da zona norte distante.
A grande questão é como criar incentivos para que as pessoas aceitem que se reduza a densidade populacional do lugar, gradativamente.
Uma das respostas: mobilidade urbana, ou seja, transporte público. Mas nada de trens superlotados e com ar condicionado quebrado, como nosso metro e super(?)via; nada de onibus sem ar condicionado (no Rio de Janeiro!!!) e com pessoas que andam em pé (é seguro?).
No Rio, o principal valor de um lugar para morar é a sua proximidade com os lugares frequentados; eu mesmo me mudei para deixar de gastar quatro horas no transito por dia há alguns anos. Hoje, minha decisão foi muito acertada, pq gastaria mais de 5h. Duvido que uma casa maior convença alguém a fazer o sentido contrário.
Perfeito comentário.
tem algumas matérias minhas falando justamente isso. Transporte publico é FUNDAMENTAL para uma politica habitacional de baixo custo.
Essa reportagem expressa com clareza a minha opinião sobre a questão das favelas no Rio de Janeiro. Acho incrível o fato de que queiram urbanizar favelas em áreas que não são legítimas, em cima de morros, onde árvores foram devastadas para dar lugar àquelas casas. O dever da UPP, em primeira mão, é o de fazer o que fez: remover o tráfico. No segundo passo, deveria começar essa política de remoção. Reconquistar uma área anteriormente dominada pelo tráfico é analisar a situação pelo viés político, mas não podemos nos esquecer de que esse território nunca foi deles e que cabe a essa “reconquista” a retomada desses locais pelo Estado. Demolir tudo e replantar.
Não adianta querer dizer que eles serão iguais à gente pois não são; não foram antes, nem serão agora. Eles continuarão sendo favelados, vivendo às margens, fazendo gatos, com a diferença de que terão o Estado como pai protetor às nossas custas.
Quem mora em favela deve ser removido, ainda mais sendo áreas de risco. Para onde vão? Não sei, para onde puderem pagar. É assim que nós fazemos, não é mesmo? Tenho um desejo louco por morar de frente para a praia do Leblon, mas não tenho esse dinheiro. Acabou. Isso é educar as pessoas também.
Para finalizar, concordo que enquanto não houver investimentos pesados em transporte público, ninguém vai querer ir morar nos bairros mais baratos do Rio. Aliás, não é só investimento, mas também reduzir o valor da passagem que é alta para mim, que sou classe média, imagina para um cara que ganha 1 salário mínimo.
Pensar assim é pensar coerente, e de forma justa.
Pois é, pessoal. Concordo com vocês. O capitalismo é feito disso. O dinheiro vai para quem teve a ideia do teleférico, por exemplo (classe dominante), não importa se ele vai atender ou não. É melhor até que não atenda, porque já deve existir um plano de manutenção onde alguns vão faturar. Quando acabar o dinheiro, é simples: o teleférico pára de funcionar.
Pois é…
As vezes parece que muita gente não defende o direito de uma moradia justa, e sim o direito do favelado morar na favela.
Haveria que se ingressar com uma ação popular para questionar tamanho descalabro e imoralidade administrativa.