700 mi para perpetuar a Rocinha

Qual é a solução para as favelas a longo prazo? Looooooooongo prazo. Quero dizer 50, ou porque não 100 anos. Quando eu e você provavelmente não estaremos mais por aqui? UPP’s e tentativas de urbanização em terrenos instáveis e logisticamente complicados? Existe outra alternativa e esta é viável?

http://www.flickr.com/photos/memorias-do-pac/3902255412/

Logo após a retomada da Rocinha todos come,aram a correr para anunciar investimentos. Segundo O Globo nada menos que 700 milhões de reais serão investidos na favelas, não sei se isso já contempla os mais de 200 milhões do PAC. Mas uma coisa é certa, é MUITO dinheiro. Dados oficiais dão conta que a Favela tem 80 mil habitantes, já dados não oficiais falam de 120 ou ate mais que isso. Para fazer um exercício de imaginação vamos usar 100 mil habitantes.

Uma unidade do “Minha Casa Minha Vida” custa menos de 50 mil reais. Mas vamos imaginar unidades de qualidade superior. Se cada unidade habitacional custar 100 mil reais seria possível construir 7.000 unidades. Com uma média de 4 pessoas por família isso representa uma nova moradia de QUALIDADE para 28 mil pessoas. Quase um terço da Rocinha INTEIRA poderia deixar de morar na favela.

Seria então um bom investimento gastar 700 milhões para não fazer isso, e sim para manter a favela? No Rio de Janeiro temos em média 300 policiais para cada 100 mil habitantes. Na Rocinha teremos 900, o que acarreta em um custo maior. Coleta de Lixo necessitara de esquemas logísticos mais complicados e equipamentos especiais, além de mais profissionais nessa função devido as inúmeras vielas por onde um caminhão de lixo não passa, acarretando custo maior. A densidade habitacional da Rocinha propicia problemas de saúde, acarretando custo maior.

Esses custos não são postos na ponta do lápis, mas pagamos todos por eles. Vale a pena ao longo de 100 anos? Não é uma questão de preconceito contra a favela ou contra os moradores da favela. Eles devem pensar nesses aspectos também, pois esses investimentos são pagos por todos através de impostos (diretos ou indiretos). O poder público deve a eles, mas não somente a eles e sim a sociedade inteira, novas politicas públicas de habitação e transporte que permitam a longo prazo que novas favelas não sejam necessárias.

Mas também que aquelas que se tornem insustentáveis, seja por motivos de risco de deslizamento, seja por motivos financeiros possam ser gradativamente removidas para lugares sustentáveis e seguros. Isso não quer dizer que devemos promover remoções arbitrárias e violentas, e o mesmo modelo fracassado que vimos do poder publico ate hoje.

Não adianta “Minha Casa Minha Vida” de 42 metros quadrados em Santa Cruz. Precisamos de alternativas de qualidade. É hora de se perguntar, se queremos perpetuar a favela com UPP’s pelo próximo século ou se alguma hora vamos inverter essa tendência. Se queremos gastar 700 milhões hoje, e sabe-se la quantos milhões no futuro para manter condições de moradia de classe inferior ou se queremos acabar com uma cidade partida através de uma nova politica habitacional.

Dinheiro existe, falta um planejamento e debate que olhe um horizonte maior do que 4 anos.

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13 comments to 700 mi para perpetuar a Rocinha

  • Diego

    É bastante complicado se pensar em ações públicas de habitação nos moldes de hoje, acho importante ressaltar que a favela não é o problema, mas há problemas na favela. Como convencer uma família que mora em uma favela largar tudo e ir para Santa Cruz, sem um transporte público de qualidade, longe do trabalho, com uma infra-estrutura as vezes pior que da favela, sem hospital, etc. Viver em encostas não tem sido problemas para os mais ricos, no relevo do RJ observamos muitas casas de luxo em algumas encostas, sem falar que no RJ hoje temos muitas favelas planas, onde o poder público poderia fazer uma urbanização de maneira bem mais fácil. É necessário repensar sériamente as políticas de habitação pois simplesmente isolar os favelados não deveria ser uma opção!

  • Roberto Leão

    Caramba!!! Excelente o texto. Infelizmente poucas pessoas tem essa visão.

    Porque a intenção desses governantes não é melhorar a qualidade de vida das pessoas necessitadas e sim, ganhar votos nas próximas eleições.

    Não irão tirar as pessoas da favela e nem irão construir melhores moradias ao redor. Irão sim… colocar uma mobilidade urbana jamais vista na Rocinha: Teleférico para o Metrô.

    Infelizmente é o que a população da Rocinha também quer e aprova. Falta educação por parte de uns e vontade política de outros.

    Nada anda como deveria.

  • João Deiró

    Há quem diga que o futuro das favelas é a valorização. Afinal, quem não quer morar no Vidigal com vista pro mar?

    Acho que o caminho é esse mesmo, pelo que deveriam obrigatoriamente desapropriar 1/3 das favelas e fazer ruas, quarteirões, permitindo a circulação dos serviços e policiamento.

    Depois, deixa as concessionárias correrem atrás de clientes e, quando todos estiverem atendidos, deixa eles venderem as casas.

    Em alguns anos, virou bairro de classe média.

  • Luís Guilherme

    O João Deiró deu a solução “capitalista”, que é excelente (muito melhor que a fascista “bota todo mundo num apartamento do minha casa minha vida em Sepetiba e dane-se que trabalham no Leblon”).

  • admin

    Não sei se essa solução é tão viável e plausivel, muitas dessas encostas são complicadas de construir, e ainda mais complicadas de se chegar, sem ruas, sem transporte, sem infra estrutura. E cria-se o risco de que a pessoa que vende o barraco para a “classe média” acaba construindo um novo no morro do lado.

  • Rodrigo

    A favela existe não somente pois a pessoa não quer pagar por nada, mas sim por se morar na Baixada e o trabalho estar no centro/zona sul.

    Nos horários de saida pro trabalho, o tempo gasto Nova Iguaçu – centro/zona sul , utrapassa 2 horas de viagem no engarrafamento, com metro leva-se 40 minutos da estação Pavuna até a Praça saens Pena, logo, 700 milhões, investido em trânsporte público, principalmente o metrô, reduziría e muito a ocupação irregular dos morros.

    Essa falácia do BRT não vai dar em nada de melhoría, o Rio precisa de metrô, não de mais carros nas ruas, esse sistema já faliu em São Paulo.

    Se eu gasto 40 minutos em um transporte que eu não preciso ir igual sardinha, como é metrô/trem, é claro que eu não vou procurar um espaço pra me instalar na favela na zona sul, podendo ter minha casa, com quintal, na Baixada.

  • João Deiró

    Sim, as encostas são complicadas e cabe ao Estado remover quem estiver em local de risco.

    Quanto a ruas e infra, o ponto é exatamente esse: tem que se criar ruas e infra.

    Depois, tudo anda sozinho. E que se controle invasões no morro ao lado, claro.

  • Diego

    No mundo inteiro só mora nas regiões centrais da cidade pessoas de poder aquisitivo MUITO ALTO! A classe média e pobre moram nos sububios, porém existe um transporte público de altíssima qualidade que leva o passageiro não necessariamente rápido, porém com conforto. Esse é o “X” da questão! Se aqui existisse um bom transporte público, boa parte de nós moraria muito bem em bairros e municipios periféricos, com uma boa qualidade de vida. O que deve ser feito é um investimento monstruoso neste aspecto, porém não podemos esquecer das pessoas que já moram nestas regiões de favela, devemos lembrar que lá vivem pessoas igualmente importantes como nós, e essas pessoas merecem ser assistidas pelo estado com políticas públicas sérias e não com ações populistas e eleitoreiras!

  • admin

    Diego. Em alguns lugares as periferias são mais valorizadas, nos EUA isso é comum. Mas em geral o que você mencionou se aplica. E sim, esse é um dos pontos fundamentais: TRANSPORTE. Já mencionei isso aqui varias vezes. Estudos mostram que +- 70% das pessoas moram nas favelas para ficar perto do trabalho, e perto não necessariamente é distância e sim Tempo + Dinheiro.

    Creio que o importante é mudar o pensamento de curto para longo prazo. Hoje gastamos milhões com contensão de encostas, UPP’s e serviços caros para manter a favela. Mas se pensarmos a longo prazo certamente sairia mais barato investir em Transporte e Habitação subsidiada, que barateia outros custos como policiamento e serviços públicos.

  • Diego

    Por isso é muito importante cobrarmos em 2012 dos candidatos a prefeitura do Rio, um debate sério e consistente sobre o tema, que quase nunca é debatido! Estudos apontam que o transporte público é uns dos fatores que mais influenciam na qualidade de vida da população. Morei nos EUA entre os anos de 2009 e 2010, pouco antes de voltar ao Brasil fiz uma viagem de carro por pouco mais de 20 dias onde passei por mais de 15 cidades e só lá fui entender o real significado de suburbio e periferia, que aqui é muito deturpado. Lá pude observar vários sistemas de transporte eficientes que fazem com que a população e a cidades tenham um ganho em qualidade de vida fenomenal! O nosso Prefeito e Governador estiveram várias vezes na Europa no últimos anos, poderiam aprender um pouco sobre isso lá!

  • Realmente, seria necessário uma reorganização do espaço urbano. Mas não se confundam; reorganizar, com expulsar o pobre do contribuinte pobre para longe dos olhos da nobreza e alocá-los a Milhas de distância.

    Afinal a política atual é a seguinte “Para que a nobreza se esbanje, o turista não se espante e a favela não seja gigante: Joga todo mundo em Campo Grande!”

  • Kondde

    Bom, o título já diz tudo, agora vão acharcar a rocinha, pois de curral eleitoral a rocinha não serve mais, não tem mais hegemonia para isso. Se bem que político consegue dar nó em gota de éter no escuro e com luva de boxe.

    Agora só resta o acharque pelo IPTU! Claro dando habite-se para barraco caindo aos pedaços (ISSO É CRIME!), é a constatação pura de que estamos em um estado demagógico, a corrupção da democracia.

  • [...] e o crescimento das Favelas  Pouco tempo atrás escrevi sobre os 700 milhões de reais que estão sendo investidos na Rocinha para perpetuar a mesma em vez de investir o dinheiro em habitações de qualidade. Ontem o O Globo [...]

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