PM despreparada mata inocentes

Não é a primeira vez, certamente não será a última. Uma Polícia mal preparada é uma polícia que leva inocentes à morte. Quem não se lembra episódio na Tijuca em 2008, em que o carro de uma mãe de família foi confundido com um veículo em fuga e atingido por 17 disparos efetuados pela PM, levando a morte uma criança de 3 anos? Ou o caso dos cinco jovens mortos que também tiveram o carro metralhado em Costa Barros com mais de 110 disparos. CENTO E DEZ DISPAROS.

Hoje foi mais uma morte estúpida. Uma turista espanhola de 67 anos foi baleada depois que seu carro passou sem parar por uma blitz na favela da Rocinha. Os PMs correram atrás do carro, que seguia em baixa velocidade, e um tiro disparado acertou a turista no banco de trás.

As circunstâncias fazem muitas pessoas esquecerem dos fatos, basta ler os comentários no facebook sobre o acontecido. Muitos acham que é justificável a polícia usar força letal, já que o veículo não parou em uma blitz no meio de uma favela que está em guerra há décadas. Guerra esta que se intensificou há algumas semanas. Mas não podemos esquecer dos fatos pois são eles que importam.

  • Um veículo não parou em uma suposta blitz policial
  • O veículo seguiu em velocidade normal
  • Os Policiais correram atrás do veículo e efetuaram disparos em direção ao veículo
  • Não havia qualquer confirmação de quem estaria no carro
  • Não havia qualquer perigo iminente aos Policiais ou população em volta advinda daquele veículo

Estes são os fatos.

Não parar em uma blitz policial não é motivo para uso de armamento letal. Simplesmente não é. Nem aqui nem em lugar nenhum do mundo. A Policia tem o direito de aplicar o uso da força de acordo com a gravidade da situação. Não há nesse caso gravidade que justifique o uso de armamento letal. Além disso (já que vi esse argumento por ai), não existe a tática de efetuar um tiro de armamento letal para parar um veículo, por exemplo atirando contra os pneus. Isso não existe, é uma invenção de Hollywood para as telinhas de cinema, não uma tática ensinada e usada por forças de segurança ao redor do mundo. Pelo contrário, as diretrizes policiais normalmente reforçam que não é seguro e não é recomendável disparar contra veículos em movimento a não ser que seja o último recursos para defesa da vida do agente ou de inocentes. Não é o caso.

Não é possível abonar o erro cometido pelas circunstâncias que cercam o ocorrido. Sim, a Rocinha está em Guerra. Sim, a PM é alvo de ataques de milícias criminosas. Sim, o clima é tenso. Sim, nossa polícia é despreparada, mal equipada, mal remunerada. Todos esses fatores acumulados podem até ter contribuído para o ocorrido, mas não mudam o fato de ter sido um erro grosseiro e inconsequente. E sobretudo, não é admissível abonar o erro sob pena de que a repetição do mesmo se torne ainda mais comum do que já é.

Defender a Polícia e as forças de segurança da nossa cidade é uma coisa. Achar que defender erros e abuso policiais é defender a polícia é maluquice. Assim como é maluquice achar que quem está apontando o erro da Polícia é defender bandido.

Nossa polícia precisa sim de mais suporte da população e do estado. Precisa sim uma remuneração mais compatível com o risco que precisa assumir. Precisa sim de melhores condições de trabalho, melhores equipamentos e muito mais treinamento. Precisa também de reformas nos sistemas penais e judiciários que acabem com o sentimento de que enxuga gelo.

Mas nada disso muda os fatos do ocorrido. Houve um erro grosseiro, o uso inconsequente e incompatível de força letal e uma pessoa inocente foi morta. Não há como fugir dessa realidade.

A reação errada é apenas crucificar os policiais envolvidos como se o problema não fosse maior que um erro pontual. Igualmente errado seria ignorar a gravidade do caso e achar que é apenas um dano colateral que não deve levar a consequências sérias aos envolvidos .

PS: O fato em si já é trágico o bastante por si só. Mas há um efeito negativo adicional para o Rio de Janeiro. A cidade tem como um dos principais potenciais de renda o turismo. E evidentemente o fato está agora estampado em diversos jornais internacionais, certamente afastando turistas e por consequência impactando negativamente a indústria turística. Isso significa manos geração de emprego e renda, menos dinheiro que entra na cidade, menos desenvolvimento econômico. Mais sobre isso neste outro post.