Teleférico do Alemão: Dinheiro jogado fora

Essa matéria foi originalmente públicada em Junho de 2015.

Foto de: Giovanna Faustini https://www.flickr.com/photos/giovannafaustini/8669024051

Hoje o jornal O Globo trás noticia que o teleférico do Complexo do Alemão está com horário reduzido, péssima manutenção. Gondolas estariam com os vidros quebrados e as catracas de acesso abertas sem fazer a cobrança e controle dos passageiros. O horário de funcionamento que era de 6h as 21h foi reduzido de 8h as 20h. O teleférico tem 3,5km de extensão e transporte em média 12 mil pessoas por dia. Moradores cadastrados tem uma passagem de ida e uma de volta gratuita por dia. Não cadastrados utilizando RioCard pagam 1 real, e que pagar a passagem na bilheteria paga 5 reais. O dinheiro não é arrecadado pela operadora e sim pelo estado (talvez o único aspecto positivo do teleférico). A concessionária operadora recebe mensalmente um valor de 3,2 milhões de reais para manter o sistema. O que equivale a um custo por passageiro de 8,90 reais.

Além disso, a construção consumiu pelo menos 210 milhões de reais. Enquanto isso o caos urbano debaixo do teleférico continua, a UPP se mostrou incapaz de mudar a situação de insegurança e as condições de moradia e habitação continuam precárias.

Se o teleférico não tivesse sido construído haveria 210 milhões de reais da construção, e mais aproximadamente 48 x 3,2 milhões dos custos operacionais (153 milhões) que poderiam ter sido investidos de outra maneira. Numero exato pode ser um pouco menor, mas matéria da Folha de Julho de 2014 mostra que no mínimo foram 126 milhões.

E o que dá para fazer com 360 milhões de reais?

Vamos manter o mesmo objetivo geral: Melhorar a qualidade de vida das pessoas que ali residem. Que tal em vez de um elefante branco como o Teleférico a construção de unidades habitacionais com qualidade e que sejam uma real alternativa à favela? Não “caixotinhos” de baixa qualidade do Minha Casa Minha Vida que logo são vendidos (mesmo que ilegalmente) para voltar para favela. Se o estado conseguir provisionar terreno sem custo não é absurdo assumir que com 100 mil reais seja possível construir habitações decentes. Vamos ser generosos e considerar 150 mil por habitação para considerar a infraestrutura em volta (praça, posto de polícia, centro comunitário, etc).

Com 360 milhões de reais poderíamos provisionar 2400 habitações DE QUALIDADE. Isso equivale a mais ou menos 10% de todo complexo do Alemão. Uma favela menor significaria menor complexidade e custo no policiamento, menor área e população para ser usada de escudo por gangues, menores custos com serviços básicos como remoção de lixo pela COMLURB e também menores custos com tratamento de problemas de saúde gerados por construções de baixa qualidade e alta densidade.

Enfim, seriam 360 milhões de reais para resolver um problema e prover moradia digna para quase 10 mil pessoas. Em vez disso gastamos o dinheiro para perpetuar a favela sem resolver os problemas fundamentais destas áreas. Ao que tudo indica fizemos um péssimo investimento, que infelizmente se replicou na Providência (onde foi construído um teleférico que até onde sei nunca entrou em funcionamento). Que a lição do Teleférico do Alemão (e da Providência) fique clara e que no futuro tenhamos mais atenção de onde e como investir centenas de milhões de reais dos cofres públicos.