O sistema de ônibus BRT do Rio de Janeiro passa por uma fase de extrema decadência. Já desde o último ano do Governo Eduardo Paes, em 2016, era possível ver que o sistema estava sofrendo de falta de investimentos básicos em manutenção e na sua operação. Os problemas são diversos, desde obras mal executadas fazendo com que o pavimento da via não aguentasse o peso dos veículos, até falta de manutenção dos veículos e das estações.
Mas na era Crivella estamos vendo esses problemas se agravando de maneira acelerada. Crivella começou a sua gestão entrando em rota de confronto direta com as empresas de ônibus ao não autorizar os aumentos previstos em contrato. As empresas reagiram da pior forma possível para o cidadão Carioca. Menos carros na rua e falta de manutenção. No caso do BRT a frota de veículos foi diminuída, a manutenção se tornou decadente com diversos relatos de problemas nos ar condicionados. E as estações estão completamente depredadas, principalmente na zona oeste. Algumas estações em áreas de milícia chegaram a ser fechadas. Um problema crônico, é estimado que aproximadamente 70 mil passageiros por dia entrem no sistema sem pagar tarifa, entrando pelas portas automáticas da estação que só deveriam abrir quando o veículo chega (muitas delas quebradas ou inexistentes).
Antes de tudo é preciso entender que o BRT não é a solução ideal para transporte em todos os lugares que ele foi ou está sendo implementado no Rio de Janeiro. Há legitimas críticas à sua escolha, principalmente nos ramais da TransCarioca (Barra-Galeão) e TransBrasil (Centro-Deodoro). No Primeiro caso porque a demanda potencial é muito maior que a capacidade do BRT, que é um sistema de média capacidade. E no segundo caso por fazer uma rota bastante paralela e próxima a ramais de Trem, um modal com potencial muito maior.

Porém existe uma realidade inexorável. Não dá para voltar no tempo e temos hoje essa infraestrutura de BRT instalada (além de pouquíssimo dinheiro para investimentos como Metrô). Muito mais factível e importante nesse momento é fazer o que temos funcionar, em vez de fantasiar com soluções bilionárias de mobilidade urbana. Precisamos nesse momento fazer o BRT funcionar como deveria, e para isso é necessária fazer os devidos ajustes e reconhecer os erros fundamentais do projeto.
Há dois problemas fundamentais que precisam ser resolvidos, e o segundo necessariamente precisa da resolução do primeiro.
1 – Segurança Pública. Os gestores públicos subestimaram a prevalência do Jeitinho e da Falta de Educação básica da população Carioca. Enquanto estações do BRT na Barra da Tijuca até que ainda estão razoavelmente conservadas aquelas que ficam em Campo Grande, Santa Cruz e outros lugares estão completamente depredadas. As portas de embarque e desembarque ou não existem ou não funcionam mais. Os embarques sem pagamento nesses lugares são regra, não exceção. O erro do projeto foi imaginar que as empresas seriam capaz de garantir a segurança e ordem nesses locais. Não são. E não adianta dizer que é obrigação. Evitar a evasão de tarifa e evitar a depredação nesses locais somente vai funcionar com a presença da Polícia Militar. E devido à natureza de reatividade ineficiente do nosso policiamento público se torna portanto necessário a presença ostensiva de policiamento dedicado ao BRT, 24 horas por dia de maneira massiva.
Ou seja, um destacamento inteiro da PM dedicado ao policiamento de todas as estações do BRT. Como estamos falando de mais de 100 estações de BRT isso não é um pequeno esforço. Seriam necessárias algumas dezenas de viaturas e centenas de policiais. Uma cooperação com a Guarda municipal pode até ajudar a diminuir o quantitativo de PMs necessários. Mas a presença da PM é fundamental. Essa é a realidade Carioca. Nesse mesmo sentido seria necessário adequar muitas estações e entorno para permitir esse policiamento. Vagas especiais ao lado das estações para o posicionamento das viaturas e em alguns casos é prudente pensar até mesmo em cabines blindadas dentro ou ao lado das estações de BRT (nas áreas de milícia ou de forte domínio do tráfico).
2 – O segundo problema a ser enfrentado só faz sentido quando o primeiro estiver garantido. Recuperar a qualidade do sistema como um todo. Isso significa reformar todas as estações que tiverem sido depredadas e manter os sistemas todos funcionando. Limpeza, iluminação, catracas, as portas de embarque e desembarque, etc… E não basta recuperar e deixar que decaia de novo. É preciso ter um esforço constante de manutenção e limpeza. O sistema precisa se equiparar em termos de manutenção ao metrô, pelo menos. Além das estações isso precisa se estender aos veículos. É imprescindível que todos eles tenham manutenção e limpeza em dia e principalmente que os sistemas de ar condicionado funcionem sempre. 100% do tempo. Por fim, é preciso repor a frota para atender melhor a alta demanda dos corredores.
O BRT nunca foi e nunca será a solução permanente para a mobilidade pública Carioca. Mas um sistema de BRT que funcione corretamente é sim um importante modal de transporte que melhora a mobilidade urbana. Diante da realidade fiscal do Município o melhor investimento que podemos fazer é recuperar e melhorar o serviço de BRT. Provendo Segurança e recuperando a qualidade mínima do sistema. Depois disso pode-se pensar em pequenos ajustes e extensões que agreguem ainda mais funcionalidade ao sistema (como uma extensão do BRT para dentro da Ilha do Governador).
Visto que nossa duplinha de gestores é Crivella e Witzel a esperança é pouca.
