A partir do dia 26 de Junho de 2019 as sacolas plásticas de supermercado não podem mais ser distribuídas de forma gratuita. Uma medida que está atrasada há muitos anos, décadas. A produção e descarte de lixo doméstico é um enorme problema ao meio ambiente. E um problema que é mal resolvido no Brasil.

O Brasileiro tem uma cultura bastante pronunciada de ‘Whataboutism’, traduzido ao pé da letra seria alguma coisa como ‘mas-e-ismo’. Que consiste em: ao ser confrontado com um real problema (A), apontar outro problema (B) para descreditar a problema (A) ou a pessoa defendendo a posição em relação ao problema (A). Como por exemplo aqueles que quando tem os seus pequenos atos de corrupção apontados recorrem ao: mas e o político ladrão XPTO que não está preso? O funcionário público que se recusa a bater ponto dizendo: mas e o diretor XPTO que é apadrinhado político blá blá blá.
A mesma tática se vê nos comentários das matérias atuais sobre a sacola plástica. Não faltam argumentos diversionistas como:
-“AH, mas os produtos vão continuar a ter embalagens plásticas” da
-“E a poluição da empresa XPTO”
-“Mas ai vou ter que comprar saco de lixo, que é de plástico também.
Outros pelo menos não fogem da questão da sacola plástica em si e questionam se de fato os supermercados irão repassar ao consumidor a economia que realizarão ao não terem mais que distribuir de forma gratuita as sacolas plásticas.
O fato é que a realidade até hoje era a de que os consumidores não pagavam diretamente pelas sacolas, e sim através dos produtos que compravam. Se o mercado vai ou não reajustar seus preços é uma dinâmica de mercado que não importa realmente nesse momento. Explico. Um determinado mercado pode ou pode não repassar a economia aos seus produtos, mas em um mercado competitivo isso quer dizer que há quem possa explorar essa economia para atrair os consumidores sensíveis a preço. Essa dinâmica já existe hoje e não há porque imaginar que não continue no futuro.
Porém, o fato da sacola ser “gratuita” (mesmo não sendo) quer dizer que todos pagavam pela disponibilidade das mesmas, até mesmo aqueles consumidores que não a usavam. E o fato de não ter um desembolso consciente e contabilizado de maneira unitária incentiva o mal-uso das mesmas. Cobrar do cliente que usa a sacola é absolutamente justo. Quem usa paga. Quem não usa não paga.
Ah, mas e quem usa a sacola para descartar o lixo doméstico?
Eu mesmo uso as sacolas plásticas para o lixo doméstico em casa. E isso é uma realidade onipresente no Brasil. Por mais que não seja o melhor material por causa da sua fragilidade e pouco controle de qualidade, o uso das sacolas de supermercado para acondicionar o lixo doméstico é quase que a norma. Na cozinha sempre uso duas sacolas, uma dentro da outra, pelo fato de que é quase impossível que uma apenas consiga conter o lixo da área da cozinha de maneira satisfatória (geralmente vaza chorume quando uso apenas uma sacola).
Não há nada que impeça as pessoas de continuarem a usar as sacolas plásticas de mercado para descartar o seu lixo. Para isso basta que elas sejam adquiridas. O fato de ter que pagar pelas mesmas tende a fazer com que o consumidor use estes produtos com mais consciência. Ou, no caso do descarte de lixo, migre para outras soluções e hábitos, seja utilizando lixeiras maiores com sacos plásticos apropriados que sejam mais resistente e consigam receber uma carga maior de lixo, seja mudando seus hábitos para produzir menos lixo a ser descartado (e pressionando fabricantes a proverem produtos que gerem menos lixo também).
A questão central não é acabar com a sacola plástica e sim acabar com o uso irresponsável e inconsciente das sacolas plásticas. Ao acabar com a falsa gratuidade da distribuição desse produto cada um se torna individualmente responsável pelo seu uso. Tanto ambientalmente como financeiramente.
